ANOTAÇÕES PARA O MEU LIVRO
Capítulo 1
Antes de Eu Saber, Deus Já Estava Escrevendo Minha História
Nasci em 3 de março de 1971, na pequena cidade de São Jorge do Ivaí, no interior do Paraná.
Naquele dia, obviamente, eu não fazia ideia de que Deus já estava escrevendo uma história muito maior do que eu poderia compreender. Na verdade, nenhum de nós sabe. Quando nascemos, enxergamos apenas o início da caminhada. Deus, porém, já contempla o caminho inteiro.
Minha mãe havia nascido na região de Franca, interior de São Paulo, mas foi criada no Paraná. Meu pai era potiguar, nascido em Serra Negra do Norte, no Rio Grande do Norte. Era um daqueles homens que parecem carregar a estrada nos pés. Andarilho por natureza, percorreu muitos caminhos até parar em São Jorge do Ivaí.
Ele nasceu em um contexto católico, mas durante sua juventude converteu-se ao evangelho em uma igreja batista. Mais tarde, passou a congregar na Congregação Cristã no Brasil. Minha mãe e seus familiares também vieram do catolicismo e encontraram em Cristo uma nova vida.
Por isso, costumo dizer que não nasci apenas em uma família. Nasci em um lar de fé.
Não era uma fé perfeita. Não era uma fé sem lutas. Mas era uma fé viva.
Foi nesse ambiente que Deus começou a moldar minha história.
Pouco tempo depois de meu nascimento, meus pais mudaram-se para Palmital, no Paraná. Eu devia ter entre dois e três anos de idade.
Palmital se tornou o cenário das minhas primeiras lembranças.
Algumas delas são doces.
Outras carregam marcas profundas.
Mas todas, sem exceção, se transformariam em ferramentas nas mãos de Deus.
Uma das primeiras memórias que guardo é a do falecimento de meu irmão Rui Maro. Ele tinha apenas um ano e oito meses de idade.
Eu era muito pequeno, mas algumas imagens nunca saíram da minha mente.
Naquela época, especialmente no interior, os velórios aconteciam nas próprias casas. Lembro-me da vigília noturna. Os homens reunidos ao redor de uma fogueira. Um grande tacho de torresmos. O chimarrão passando de mão em mão. Conversas baixas cortando o silêncio da madrugada.
Também me recordo do momento em que o corpo de meu irmão foi levado para o sepultamento.
Era uma caminhonete Ford azul-clara.
Meu pai seguia na carroceria.
Minha mãe, consumida pela dor, desmaiou quando viu o cortejo partir.
São imagens que permaneceram vivas em minha memória por mais de cinquenta anos.
Naquele momento eu não entendia o sofrimento.
Mas hoje compreendo que Deus não desperdiça nenhuma experiência humana.
Nem mesmo a dor.
Nem mesmo as lágrimas.
Nem mesmo o luto.
Outra lembrança marcante daquela época envolve um acidente que só muitos anos depois revelaria suas consequências.
Meu pai precisou entrar rapidamente em casa e me pediu que segurasse a rédea de um cavalo.
Eu obedeci.
Em algum momento o animal se assustou. Não consigo me recordar do motivo.
O que lembro é de ser arrastado pelo chão, com as mãos presas às rédeas.
O acidente provocou um traumatismo craniano que somente seria identificado décadas depois, já na minha fase adulta, quando realizei exames de imagem.
Na infância, aquilo foi apenas mais um episódio.
Hoje, olhando para trás, percebo quantas vezes Deus me preservou sem que eu sequer percebesse.
Existem livramentos que reconhecemos no momento em que acontecem.
Outros só compreendemos muitos anos depois.
Mas talvez a memória mais importante daquele período esteja ligada à fé de meu pai.
Vivíamos em uma região onde havia conflitos de terras envolvendo posseiros. O clima era de tensão constante. Havia perseguições, ameaças e violência.
Meu pai havia conquistado o respeito de muitas pessoas por causa de seu coração generoso.
Quando uma das filhas de um grupo de posseiros faleceu, ele tomou uma decisão que muitos considerariam imprudente.
Mesmo sabendo que alguns daqueles homens o haviam jurado de morte, ofereceu ajuda.
Providenciou documentação.
Auxiliou nas despesas do funeral.
Emprestou pratos, talheres e utensílios.
Serviu pessoas que, em circunstâncias normais, deveriam ser consideradas seus inimigos.
A razão para isso não estava na coragem humana.
Estava em algo que Deus havia falado ao seu coração.
Meu pai acreditava ter recebido uma palavra do Senhor de que aqueles homens jamais avançariam contra sua família ou suas terras.
Outros fugiram.
Outros abandonaram a região.
Mas ele permaneceu.
Não por teimosia.
Por fé.
Algum tempo depois daquele funeral, os posseiros realizaram uma reunião entre eles.
Segundo fomos informados, decidiram que não fariam nenhum mal ao meu pai.
Ele estava protegido.
Quando olho para trás, percebo que essa foi minha primeira grande lição sobre fé.
Eu ainda era apenas uma criança.
Não entendia teologia.
Não conhecia doutrinas.
Não sabia explicar a providência divina.
Mas vi, com meus próprios olhos, um homem confiar na palavra de Deus quando todos os fatos ao seu redor diziam para fazer o contrário.
Foi ali que comecei a aprender uma verdade que me acompanharia por toda a vida:
A fé não elimina os riscos.
A fé apenas nos ensina em quem confiar quando os riscos existem.
Talvez eu ainda não soubesse, mas Deus já estava me ensinando as primeiras lições que mais tarde moldariam meu ministério.
Antes de eu subir em qualquer púlpito.
Antes de eu pregar qualquer sermão.
Antes de eu ensinar qualquer pessoa.
Deus já estava me ensinando através da vida.
Capítulo 2
Uma vez sanada a crise da posse da terra e ameaça de morte, eu pai resolve vender o terreno. Na venda, recebe uma parte em dinheiro e um sítio menor, mas, já formado de café em Jussara-PR. Tenho memória da nossa chegada. Me recordo que eu tinha um carrinho de brinquedo, deixei cair do caminhão na entrada desse sítio, o motorista teve que parar por minha causa. Comoção, reprimenda. Mas foi nosso primeiro pisar naquela terra. Eu tinha 05 anos de idade. Me recordo como se fose hoje. O sítio era de café. Tinha maravilhoso terreirão de cimento para a secagem do café. Mas, surpreendentemente era cortado por uma linha férrea. Os maquinistas passavam e buzinavam para nós. As máquinas de manutenção, passavam, pediam água, tomavam café, brincavam conosco. Ali estão minhas memórias do meu irmão Eduardo. Ele é o meu segundo irmão. Nasceu, portanto, antes do Rui Maro, mas, por algum motivo, não tenho memórias dele em Palmital. Minhas primeiras memorias são ele e eu brincando neste terreirão e vendo os trens passarem. Neste sítio, acredito que vivemos nossa fase mais felizes, desta primeira infância. Foi também que vi a primeira briga (ao menos que tenho consciência), entre meu pai e minha mãe. Me recordo que ela quis se separar, ir morar com os seus irmãos mais velhos. Me recordo da reconciliação. De meu pai pedindo perdão, com a gente na mesa, explicou que errou ao discutirem, pediu perdão, fez uma oração, jantamos, e restabeleceu-se a paz. Meu pai, era um homem bruto, talhado pelo brutalidade da vida. Cresceu sem seu pai, que faleceu quando ele tinha 06 (seis) anos. Esta brutalidade, mesmo sendo cristão e um servo de Deus exemplar, por vezes, ultrapassava limites. Especialmente, na educação dos filhos. Com minha mãe, só o vi exceder-se uma vez. E foi nesta. Coisa que nunca mais se repetiu. Nesse sítio havia uma pinguela, que era feita tipo uma escada, que atravessava um rio. Era meu terror.
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